quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Polêmica | A Publicidade criativa nos tempos do "politicamente correto"


Matéria publicada na Revista Exame (leia aqui), em 13/10/2011, discute a polêmica campanha da Hope, com Gisele Bündchen, que suscitou diversos debates sobre a liberdade de expressão publicitária e a linha "politicamente correta" dos dias atuais. Abaixo, trecho da matéria:

"Humorista dos mais queridos por crianças e adultos nas décadas de 70 e 80, o ator e músico Antônio Carlos Bernardes Gomes dificilmente faria sucesso nos dias atuais. Bernardes encarnava o trapalhão Mussum, um simpático sambista que fazia rir com suas piadas, trejeitos e gírias como “cacildis”, “forévis” e “mé”, a forma quase carinhosa como ele se referia à cachaça.

Há cerca de 30 anos, as brincadeiras de Mussum, mesmo as que envolviam o “mé”, eram vistas apenas como o que realmente eram: brincadeiras.

Hoje, diante do surgimento de uma patrulha moralista que tenta barrar propagandas e quadros de humor que lancem mão de situações engraçadas do cotidiano, sob o pretexto de proteger a família, as mulheres, as crianças, os homens e as minorias mais variadas, as referências à bebida feitas pelo comediante seriam certamente apontadas como apologia ao alcoolismo.

Nos dias de hoje, Bernardes correria um grande risco de nunca se tornar um Mussum. Felizmente, para ele e para quem o assistiu, a época era outra e até hoje o humorista é lembrado como um camarada engraçado e boa gente, e não como um bebum mau-caráter.

Outros atores, modelos, roteiristas e publicitários, contudo, não tiveram a mesma sorte. Vivem em um momento em que há riscos de ser processados pela sociedade protetora dos animais caso façam piadas envolvendo papagaios.

Recentemente, a modelo mais famosa e bem paga do mundo, a gaúcha Gisele Bündchen, tornou-se alvo da patrulha politicamente correta. A campanha que estrela para a marca de lingerie Hope foi acusada de denegrir a imagem da mulher.

Nos filmes da campanha, Gisele aparece conversando com um marido imaginário e dá notícias desagradáveis, como a batida do carro, o estouro do cartão de crédito e a chegada da sogra (dele) para morar com o casal, sempre em duas versões. Em uma delas, a modelo aparece vestida de forma simples e surge a legenda: “errado”.

Na outra, Gisele se exibe de calcinha e sutiã da Hope. Nesta, a legenda é: “certo”, referindo-se à melhor forma dedar notícias ruins. Para finalizar, a campanha criada pela agência Giovanni+DraftFCB usa o slogan “Você é brasileira, use seu charme”.

Há uma pitada de machismo na peça? Claro que sim — como em piadas que contamos a amigos e amigas. Na época em que Mussum fez sucesso com a criançada, esse seria apenas mais um filme de 30 segundos exibido antes de recomeçar o programa de TV.

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